Quem manda
Luis Fernando Verissimo
Para se saber quem realmente manda numa empresa ou numa repartição é preciso examinar as mesas. Quanto mais cheia a mesa, menos o seu ocupante manda. Quanto mais limpa a mesa, mais autoridade. O chefe que se queixa de que sua mesa é tão confusa quanto a de qualquer subalterno e nem por isso ele manda menos deve se precaver. Em algum lugar da sua organização há alguém atrás de uma mesa vazia que parece não estar fazendo nada. Provavelmente é ele quem manda.
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Quanto maior a mesa, maior a hierarquia. Mas não é o tamanho da mesa que determina o status. É que, quanto maior a mesa, maior e mais conspícua a superfície limpa. Até um interfone sobre a mesa é um sinal de fraqueza. Quem realmente manda não precisa se intercomunicar. Quem realmente manda não precisa mandar!
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Mas existe outra teoria, exatamente inversa. A verdadeira autoridade é a que dispensa qualquer símbolo de autoridade – como a mesa vazia. Os aparentes donos do mundo, que pisam em hectares de tapetes macios nas coberturas de torres de vidros fumê e sentem atrás de mesas vazias do tamanho de canchas de basquete, seriam apenas fachadas, para impressionar as visitas, de quem realmente manda. Quem realmente manda tem um pequeno escritório em cima de uma peixaria na Antuérpia, uma mesa cheia de pastas de arquivos e restos de pizza e quando quer alguma coisa grita “Gundrum”, mas a secretária não vem porque está em casa com um filho gripado.
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Tem uma fantasia que eu cultivo. A de um dia chegar à maior autoridade de todas, alguém que esteja mesmo por trás de tudo – Deus, por exemplo -, e descobri-lo sentado atrás de uma velha escrivaninha coberta de diagramas, relatórios e planos para o futuro, batendo impacientemente nos papéis com a palma da mão dizendo:
- Cadê a minha Bic?
Ele derruba a garrafa térmica e derrama café em cima dos papéis, do cinzeiro cheio, etc. Toca o telefone e ele grita para a secretária:
- Dona Solange, eu só estou se for o Papa.
TIA INEZ
Sempre imaginei como o mundo reagiria a uma prova da existência de seres extraterrestres. Na literatura e no cinema, seres de outros mundos são sempre superiores a nós, mesmo que tenham a pele ruim, e nossa reação diante deles é sempre de pânico. Imaginamos que se não nos arrasarem com seus raios de morte nos arrasarão com sua superioridade moral. Mas que transformação provocaria, mesmo, no pensamento humano o aparecimento de algo remotamente parecido com a tia Inez em Marte ou em uma das luas de Saturno? Chegaríamos mais perto de uma consciência de espécie, da ideia do nosso planeta como uma nação comum a todos, ou cairíamos num tribalismo supersticioso ainda maior? É por isso que olhamos essas fotografias mandadas de Marte pela sonda da NASA sempre esperando ver um rosto nos olhando de volta. Dois olhos curiosos numa cara reconhecidamente animal – ou um olho, ou vários. Enquanto uma daquelas sombras não se mexer e revelar que tem pernas os feitos da NASA serão grandes acontecimentos científicos mas não grandes êxitos de público. Falta a referência afetiva. Falta a tia Inez. Por enquanto as prospecções da NASA servem apenas para mais divagações sobre a estranheza do Universo, essa coleção de esferas soltas no espaço sem motivo humanamente discernível. Por enquanto, estão transmitindo apenas outro aspecto do desprezo da matéria por nós e pela nossa perplexidade. Falta uma perplexidade parecida nos olhando de lá. Falta um olho piscando. Falta um cachorro passando no fundo. Qualquer coisa que não seja indiferença para todos os lados. Um dia uma daquelas pedras sai caminhando, e aí eu quero ver.
Domingo, 26 de novembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.